O pioneiro e ex-vereador fabricianense José Martins de Barros, o popular "Nonô da Loteria", completaria neste último dia 07 de novembro a idade centenária, não nos tivesse deixado há alguns anos. Nascido aos 07/11/1911, em Antônio Dias, onde era conhecido como "Nonô Martins", casou-se em 1933 com Carlinda Atayde, uma jovem do mesmo torrão natal. Pai de 11 filhos (hoje são 5 vivos: José, Aparecida, Edir, Wander e Marcelino), avô de 26 netos e bisavô de 15 bisnetos.
Pelos lugares que passou e residiu foi tropeiro, lavrador, sitiante, comerciante de secos e molhados. Também foi mediador de conflitos relacionados a divisa de terras e recenseador, etc. Em suas andanças, por onde passava ia deixando inúmeros amigos, como nas localidades de Curriola em Antônio Dias, Cocais dos Arrudas, Barra Grande em Mesquita e, por fim, Coronel Fabriciano.
Era um guerreiro de muita fibra. Aportou-se definitivamente em Coronel Fabriciano entre o final da década de 1940 e início da de 1950, época da emancipação, onde se instalou como o primeiro agente lotérico de toda a região: matriz em Fabriciano e filiais em Ipatinga e Timóteo. Uma agradável observação: todos os funcionários e "cambistas" tornaram seus compadres, além de vários outros da comunidade fabricianense.
José Martins de Barros, a partir de então, com a sua casa lotérica, recebeu o histórico apelido de "Nonô da Loteria", pelo qual era chamado por todos até seu óbito ocorrido em 25/10/1996. Era um homem de inigualável inteligência, voluntarioso, de vigor físico, passo cadenciado e elegante, voz bem soante, olhar penetrante e doce de quem a tudo observa com perspicaz atenção e bom senso.
Por estas e outras foi nomeado, pelo então Governador do Estado Rondon Pacheco, no início da década de 1970, Juiz de Paz de Coronel Fabriciano, ocasião em que além de presidir os casamentos no cartório civil, distribuia seus conselhos aos litigantes, celebrava acordos e cuidava da orientação para a aposentadoria dos que tinham tal direito (e foram centenas), usando de seu talento múltiplo para o exercício de atividades aparentemente antagônicas - era a espinhosa atividade do Juizado de Paz.
Outros fatos marcantes da vida desse notável homem público aconteceram no decorrer dos anos. José Martins de Barros foi um gigante na política local. Era uma época em que o prestígio de um chefe político dependia, principalmente, da simpatia do Governo do Estado e do privilégio de indicar delegado de polícia, professor(a) e diretor(a) de escolas estaduais, chefes de coletoria, comandantes da polícia militar, etc.
"Nonô da Loteria" tinha estes poderes em razão da sua incontestável liderança, tanto que era alcunhado (pelos Deputados por ele "trabalhados") de General da Política fabricianense. Foi um pacificador estratégico, uma velha raposa na arte política, em acontecimentos interessantes do panorama político de então, usando, com extrema maestria, a verve de sua especial inteligência mordaz e brilhante, que a todos cativava. O trabalho inicial na lotérica associado à sua influência na política, sempre com bons desempenhos eleitorais, lhe renderam o título pomposo de “pé quente” em Coronel Fabriciano.
Dos embates mais acirrados às situações mais intransponíveis, "Nonô da Loteria" opunha o argumento faiscante da ironia sem se afastar da sinceridade de seus propósitos, acabando por desarmar os ânimos mais exaltados e captar o respeito e a confiança de todos no desate das questões discutidas. Era um orador fluente: brilhava nos comícios fazendo vibrar as pequenas multidões sempre por ele arrastadas.
Corajoso, desbravador, maçom, líder trabalhista que na defesa de seus ideais foi preso político (pelo DOPS, de Belo Horizonte) e constantemente perseguido durante a ditadura militar. Como prêmio, elegeu-se vereador em 1976, legislando até 1982. Obteve mais de 700 votos válidos. Naquela época era vedado ao eleitor escrever na cédula o apelido do candidato (no caso Nonô da Loteria). Resultado: 358 votos anulados. Como vereador, trouxe vários e vários benefícios à sua Coronel Fabriciano. Deixou diversas lembranças ainda hoje contadas e comentadas pelos seus contemporâneos.
Mas a que ficou mais gravada foi a criação, de sua autoria, da Tribuna Popular instalada e mantida até os dias atuais no plenário da nossa Câmara Municipal. Tanto é que, através da Resolução n° 180/1998, aquela famosa Tribuna passou a ser denominada "Tribuna Popular Vereador José Martins de Barros - Nonô da Loteria". Este é o instrumento onde qualquer cidadão pode levar sua mensagem, sua sugestão, suas críticas e reclames, usando da palavra naquela Tribuna quando de reuniões do Legislativo fabricianense.
Abro um parêntese para fazer uma homenagem pessoal. Nasci seu neto, mas me transformei também em seu filho, por quem fui criado durante a infância e adolescência. Tempo de aprendizado, de formação, de crescimento, de transformação. Que grande presente eu ganhei, logo ao começar da vida, para orientar e direcionar essa caminhada. Foram conselhos acertados de quem aprendeu muito com a sua própria vivência. Um amigo, companheiro, exemplo moral, de quem herdei princípios e a experiência para uma atuação política pautada no diálogo e no convívio com os mais simples.
Por tudo que fizeste e ensinaste, muito obrigado ex-vereador José Martins de Barros, "Nonô da Loteria". Que os bons possam seguir seus exímios exemplos!
Salve o centenário de nosso pioneiro e um dos nossos maiores líderes!
* Marcos da Luz - Vereador em Coronel Fabriciano e neto do "Nonô da Loteria" (colaborou com o texto Marcelino Martins Barros, advogado, filho do "Nonô da Loteria")


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